[Ubuntu-PT 8571] Re: Europa livre de patentes de software
diogoconstantino sapo.pt
diogoconstantino sapo.pt
Terça-Feira, 8 de Março de 2011 - 16:28:00 UTC
Faltou ainda dizeres que ter em conta as leis de patentes, faz com que
o desenvolvimento de software não seja sustentável, ou mesmo
praticável...
Em primeiro lugar implica ter que se contratar uma equipa de advogados
e outros especialistas técnicos para se fazer uma pré-análise, de quais
as patentes que poderão afectar o software em causa. E isto custa
muito dinheiro, e exclui logo à partida free-lancers e a maior parte
das pequenas e médias empresas.
Em segundo lugar tens que conseguir licenciar, patentes. Isto custa
dinheiro e podes nem conseguir apenas porque o detentor das patentes
está com dor de dentes e por isso está mal disposto. Ou então têm
algum conflito legal e/ou comercial. Ou simplesmente não querem mais
competição no mercado.
Em terceiro lugar, se não conseguires licenciar patentes tens que
desenvolver métodos alternativos... O que pode não ser possível,
porque a linguagem utilizada
nas patentes é intencionalmente vaga para que sejam o mais abrangentes
possível. É altamente improvável que se tenha também dinheiro e tempo
para a investigação e desenvolvimento necessário para criar métodos
alternativos e quando o fizerem volta-se ao princípio, pois é preciso
confirmar que esses métodos não estão já patenteados, ou que não
precisas de licenciar outras patentes para poderes utilizar estes
métodos, ou seja, é preciso mais tempo e mais dinheiro.
Em quarto lugar à medida, em que o software é desenvolvido. Tem que se
ir avaliando a necessidade de licenciamento de outras patentes isso
tem que ser pago. Se forem preciso novas patentes os problemas
anteriores voltam todos a colocar-se. Se escolherem verificar apenas
no fim do desenvolvimento o impacto de uma pantente aumenta, pois pode
implicar ainda mais mudanças e a repetição de todos os problemas
anteriores. Quer num caso, quer no outro encontrar problemas significa
ter que gastar mais tempo e mais dinheiro.
Conclusões:
* o desenvolvimento de software fica cada vez menos a ser uma questão
de engenharia e cada vez mais uma questão de direito. Isto faz com que
o foco e o esforço se afaste de qualidade;
* o desenvolvimento de software fica proibitivamente caro para quase
todas as empresas. E a maior parte das empresas que desenvolvem
software, nem são software houses, nem sequer empresas de informática,
mas sim empresas que têm outros negócios e desenvolve/encomendam
software à sua medida para as especificidades do seu negócio. Os
custos e tempo de desenvolvimento de software vão fazer com que não só
o software desenvolvido por empresas de informática seja muito mais
raro e mais caro, como também o software desenvolvido pelas outras
empresas seja mais raro, mais caro, o que implica também uma
diminuição da operacionalidade dessas empresas e uma diminuição da
inovação de modelos operacionais e de negócio dessas empresas;
* o software ficaria muito mais caro e quem pagará isso vão ser os
consumidores;
* o risco do financiamento do desenvolvimento de software aumentará o
que faz com que houvesse menos investidores e por isso menos software;
* haveria menos competição e por isso os preços aumentariam e a
qualidade diminuiria;
Se colocarmos isto tudo numa balança, vamos ver que vantagem do
incentivo económico a quem detém a patente é muitíssimo ultrapassada
pelas desvantagens. Para além de haverem outras formas de fazer
dinheiro com uma invenção, como vender produtos e/ou serviços que a
utilizem.
Citando João Miguel Neves <joao.neves intraneia.com>:
> On 05-03-2011 19:21, André Pereira wrote:
>> Lamento discordar da sua opinião, no entanto...
>>
>> Se alguém inventou algo e esse alguém tem interesse em utilizar
>> esse algo em seu beneficio ou em beneficio de alguém, qual é o
>> problema de ter de pagar a quem teve a ideia?
> A teoria é bonita, não é? Na prática a situação é completamente diferente:
>
> 1) O detentor da patente não precisa de ser o inventor (raramente é).
>
> 2) Patentes rídiculas, como a patente de desenhar "linhas gordas"
> (aka rectângulos) num ecrã da IBM.
>
> 3) Portfolios de patentes: empresas que têm milhares de patentes e
> que te acusam de usar uma das patentes deles. Só defenderes-te
> contra essa situação investindo uma fortuna em análise de patentes.
>
> 4) Construção de software é incremental. O mais pequeno dos
> programas tem milhares de conceitos lá metidos.
>
> 5) Licenciamento das patentes é opcional. Se precisares de uma
> licença de patente (por exemplo, para ler DVDs em GNU/Linux) podes
> não poder fazê-lo (legalmente). O mesmo acontece com qualquer código
> publicado, seja a patente necessária antes ou depois da publicação
> (pode ser desconhecida durante o desenvolvimento - é algo normal).
>
> Cumprimentos,
> João Miguel Neves
>
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